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Reflexos Quebrados


Para João, o pior dos mal-amados,





gostaria de escrever uma carta: te entendo; não digo isso só pelo nome que compartilhamos: na situação que me encontro sou o último. A minha frente há várias pessoas e nenhuma atrás,estou numa fila de banco pra pagar umas contas, sou o último da fila, espero. Parece que a caixa não vai me atender, certeza. Fechará o banco com a falsa certeza dada pela atendente a mim que serei contemplado e pagarei as contas. O primeiro da fila, gosto de ver sua cara ansiosa; busca os números da sua senha nos visores eletrônicos: um pouco de inveja gorda, salta da minha boca: dificilmente fui esse em algum momento da minha vida. Aqui, sempre numa situação metáforica parecida,de trás, eu vi tudo acontecer e nada fiz. Guardei tudo para um futuro monólogo, qual direi sem palco e sem nenhum fantasma clamando sangue na Dinamarca. E, sem falsa modéstia, gostaria que fosse um bardo que escrevesse sobre minha vida onde nada passasse, so se resumisse afinal, de letras impressas, tudo e todos os nuances, como também essa enorme fila onde espero algum dia ser atendido.Sim, a totalidade dos meus momentos não passasse de meras conjecturas ficcionais, minha vida apenas como um livro de lombada quadrada.



Não seria muito grosso, o tal livro. Por volta de umas 230 páginas daria mais que conta. E sei; o inglês não costuma se delongar muito nas suas dramaturgias, além disso pediria pra ele para ser sucinto, depois diria o seguinte:“ quero ver vc arranjar algum mote pra alguma coisa sem banho de sangue no final”. Várias tiragens, somente publicado em livro de bolso, quero atingir as massas; aí, percebo que as pessoas da fila do banco estão lendo o meu livro: algumas devoram ferozmente página a página, capítulo a capítulo na procura do final surpreendente, no climax majestoso: a grande catarse como meio de expiação dos próprios pecados.



As pessoas teriam um pouco de ansiedade, além do suor usual, entre as várias páginas lidas; muitas sobreos mesmos temas: reclamando do mundo e de mim mesmo, sobretudo. Parece que a vida de um idiota não tem muita graça sem um melodrama ou um mote pra vingança, é fato.



E pra finalizar, num lance oportuno, os leitores começam a largar mão do livor, próximo do final,deixando as últimas páginas para ler num momento distante, pois já haveria capturado a atenção e roubado um pouco os corações dos leitores com minhas reclamações insistentes, agora que o final se aproximara, e eles suados e ansiosos, não quisessem ver o fim do livro, pois já tinham gostado, se sentiam dentro daquele emaranhado de problemas e dúvidas pessoais; aí, já era tarde, e vcs, leitores, acreditariam que eu, tão mal-amado assim, mereceria até um abraço se fosse encontrado na rua num dia de tempo ameno.



Mas o calor impera e as coisas dificilmente mudam, a fila até poderia andar um pouco, um movimento lento e gorduroso que vai deixando máculas(gotículas) para cada um que vai sendo substituído e para outro contemplado. Sou ainda o último e posso não ser atendido, como não disse a atendente do banco. É... a fila anda, e algumas pessoas, que não aguentaram a ansiedade ou o calor, tentam confirmar as últimas páginas: a caixa do banco fala que não poderá me atender, alegando dor de cabeça: sorrio e saio com a usual cabeça baixa; tento, ao levantar os olhos além do horizonte, ver uma pequena nuvem cinzenta acima somente da minha cabeça, ledo engano. O tempo está claro; as pessoas, felizes; o mundo, em harmonia. Fiquei sem clima para o monólogo final e um possível suicídio; e mais, lembro que sou idiota, e mais ainda, covarde. As pessoas, decepcionadas com o desfecho do capítulo final onde nada acontece, começam a fechar o volume quando percebem algumas letras no final, isoladas, com o seguinte dizeres:






“Seria, bem mais interessante, se a caixa do banco chamasse Tereza”


William S.



Abraços,


do umbigo do universo,


João



Escrito por Pretenso Poeta às 04h51
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